Tempos atrás publiquei aqui no blog uma reportagem que escrevi para o Le Monde Diplomatique Brasil e algumas entrevistas que originaram o texto. Naquelas linhas, eu falava, entre outras coisas, sobre a interferência ou atuação de ONGs – principalmente as evangélicas – em comunidades indígenas. Segundo o que foi apurado, para muitos antropólogos, indigenistas e representantes da FUNAI, a atuação dessas missões é mais prejudicial aos povos indígenas que obras do PAC, desmatamento e contato com a chamada sociedade envolvente.
Fui atrás, então, de uma dessas organizações – aquela que talvez tenha mais influência em comunidades indígenas, inclusive, em comunidades consideradas isoladas. Só depois de um tempo razoável veio a resposta e só agora – depois de outro tempão – publico a entrevista com uma das diretoras da organização não governamental Jovens com uma Missão (Jocum), a etnóloga Bráulia Ribeiro.
Diferentemente do que diz o site da organização que a professora dirige, ela afirma que a Jocum não faz pregação em terras indígenas, apenas em “populações aculturadas e a pedido destas mesmas populações”. Relatos da FUNAI e de antropólogos que combatem esse tipo de atuação revelam que a primeira atividade dessas ONGs é aprender a língua falada na aldeia e traduzir a Bíblia de uma forma acessível aos indígenas. A diretora se defende e diz que os trabalhos dos missionários estão relacionados à “sobrevivência dos povos”. Sobrevivência? A maioria das áreas em que a Jocum atua é de povos que vivem (ou deveriam viver) ainda sem contato. Com área de mata, caça, água, alimento. Por que, então, uma intervenção? Quem pediu ajuda? Como sabemos, a melhor defesa é o ataque. E aqui não foi diferente. Vejamos a entrevista…
Qual a área de atuação da Jocum hoje no Brasil?
Bráulia Ribeiro: Atuamos em vários povos na região sudoeste amazônica, Acre, Rondônia e sul do Amazonas.
Com que pretexto a Jocum entra em terras indígenas? Pregação em terras indígenas é crime…
BR: Nosso trabalho principal não é pregar. O trabalho considerado “religioso” só acontece em populações aculturadas e a pedido destas mesmas populações. Um missionário em área indígena da JOCUM se ocupa mais em tarefas diárias relacionadas à sobrevivência destes povos do que com tarefas religiosas. Não existe uma “catequese” sistemática. O trabalho humanitário acontece no contexto de relacionamento. A cosmovisão cristã está muito mais próxima da cultura indígena do que a cosmovisão secular liberal, o cientificismo cético que praticam os indigenistas não-cristãos. Enquanto o secularismo nega a existência de um mundo sobrenatural e atribui tudo à mitologia e ao folclore indígena, o cristão crê na sobrenaturalidade que permeia o dia a dia indígena e participa desta realidade com suas orações, portanto é mais capaz de respeitar o universo cosmológico indígena do que as pessoas que não professam fé. A moral cristã também se parece mais com a vida tribal, que na maioria das vezes tem o núcleo familiar forte e bem apoiado por sanções sociais, do que a amoralidade permissiva que alguns pesquisadores retrataram erradamente.
Mas os relatos e até mesmo os textos que são encontrados nos sites de vocês não mostram essa compreensão toda… Certa vez li que a missão de vocês era algo como “levar Deus aos povos sem alma”… essa não me parece uma postura de quem quer apenas ajudar o próximo, mas de quem quer impor sua crença a um povo, teoricamente, mais fragilizado.
BR: Não trocamos assistência de saúde e educação por conversão, ou usamos nossa estrutura de apoio para obrigar os indígenas a se tornarem “prosélitos” de nossa religião. Isto seria totalmente contrário aos princípios que vivemos. Em qualquer lugar onde desenvolvemos um projeto social, seja de economia sustentável, saúde ou educação, todos tem acesso aos benefícios criados pelo trabalho. Os projetos também são sempre embasados em um profundo conhecimento da língua e da cultura do povo em questão, isto também nos diferencia das outras ONGs que em sua maioria não priorizam o aprendizado em seus projetos.
Bom, mas a Jocum não é bem vista no meio indigenista e até por outras ongs… São injustas as acusações?
BR: Temos sido vítimas de uma indisposição geral do governo em dialogar com as missões indígenas, e uma suspeita gratuita e injustificada. Até agora as investigações feitas não conseguiram provar nada contra nós a não ser a simples constatação de que temos sim uma fé religiosa, direito que nos é garantido pela Constituição Brasileira, que garante aos seus cidadãos a liberdade religiosa. (N.A.: liberdade essa que também vale para os indígenas. A lei também diz que pregação em terra indígena é crime.)
Mas existe uma séria acusação contra a Jocum de interferência cultural… com o caso Suruahá.
BR: O governo foi fazer uma investigação, mas quando chegou lá não pode encontrar nada que nos incriminasse. O próprio missionário andava nu como os índios e nada da cultura externa era imposto à população.
Mas o fato de missionário andar nu não significa nada… vocês são acusados de interferir nas crenças desse povo… e não digo aqui só de crenças “religiosas”, mas com relação a doenças, curas e tradições…
BR: Nossa presença só se fazia sentir quando algum problema de saúde mais grave escapava da capacidade dos curandeiros e anciãos da aldeia. Então eles procuravam ajuda externa. Esta ajuda não deve ser negada aos povos semi-isolados como infelizmente é o procedimento atual do governo. Se estamos interessados mesmo na sobrevivência destes povos, uma assistência de saúde digna, tanto emergencial quanto preventiva se faz necessária. Divergimos da política isolacionista, que força populações inteiras a um retorno a um estado paleolítico sem que lhes seja dado a opção de se beneficiarem dos recursos dos quais dispõe a medicina moderna.
Não é isso que acontece na prática. Com relação aos povos isolados ou com pouco contato, a política defende, e isso tem se mostrado real a medida que analisamos comunidades com contato antigo, que deve-se garantir o direito desse povo em continuar num estado de isolamento. Isso tem se mostrado melhor para as comunidades… a não ser em caso de grave risco de extinção do povo. Pois esses povos são monitorados à distância (bem ou mal). Mas voltemos ao caso dos Suruahá… os relatos dizem que vocês levaram sem autorização e sem o consentimento da comunidade inclusive, uma menina para tratamento em um hospital em São Paulo…
BR: Em 2005, nós retiramos um bebê da tribo suruwahá para ser operado em São Paulo de uma má formação física, a pedido de seus pais. Os pais quando perceberam que ela nascera com um defeito físico grave se recusaram a matá-la como era a sua tradição cultural. A tribo é pequena e eles valorizam muito suas crianças, não queriam perder uma se havia meios para salvá-la. Perguntaram então ao nosso indigenista se era possível salvá-la na cidade grande, e claro ele disse que sim. A família então saiu da aldeia com nossa ajuda, foi levada para São Paulo e finalmente depois de uma batalha legal a menina foi submetida a uma operação que “concertou” seu corpinho e ela pode voltar para tribo onde viveu bem cuidada e feliz até a idade de quatro anos de idade. Devo explicar que na ocasião o Ministério Público Federal guiado pelos ideologistas do isolacionismo tentou impedir o hospital de São Paulo de efetuar a operação. A menina acabou tendo a permissão de ser operada por causa da pressão causada pela mídia. Enquanto a missão estava presente na área, a menina sobreviveu, mas infelizmente a missão foi impedida de continuar monitorando o tratamento quando foi expulsa da área. A menina veio a falecer no dia 14 de março deste ano por falta de uma medicação da qual ela necessitava diariamente, poucos meses depois de nossa expulsão.
Mas você acha que a forma como vocês interferem na vida desses povos é certa? Quero dizer, traduzir uma bíblia para a língua de um povo com pouco contato, interferir nas suas crenças e tradições, alterar a forma com que se relacionam com o mundo é correto?
BR: Não somos uma missão integracionista, ou seja, que tem como alvo a integração cultural das tribos à cultura nacional. Alguns missionários fazem a tradução do Novo Testamento, mas fazem também a tradução de lendas e mitos da cultura indígena. A própria tarefa de tradução da Bíblia obriga o missionário a um conhecimento real e respeito pela língua e cultura indígena maior do que o de um antropólogo que passa dois ou três meses numa tribo ajudado por tradutores quase sempre ruins, para elaborar uma dissertação na maioria das vezes planejada para provar uma tese científica qualquer já pré-estabelecida. Quando nas aldeias mais aculturadas acontece o ensino bíblico este ensino é mais um no meio a tantos outros ensinos necessários para a sobrevivência do povo, e ao invés de diminuir a auto-estima e força cultural do povo faz com que eles tenham mais orgulho de quem são e, portanto vontade de manter sua organização social e familiar. A Bíblia é basicamente a história de um povo tribal lutando para sobreviver em meio a nações mais desenvolvidas e que os oprimia. Conhecer esta história só ajuda aos povos indígenas a saber que não estão sozinhos e que também podem sobreviver.
Você acha então que a nossa visão do que é certo ou errado basta e nos dá o direito de interferir no cotidiano desses povos?
BR: Hoje no Brasil passamos por um momento crítico para os povos indígenas. O mito da tolerância cultural absoluta nos tirou a capacidade de perceber os seres humanos por trás da coletividade, ou da cultura indígena. Para os muitos indigenistas somos culpados do crime de interferência cultural apenas porque salvamos vidas. Para eles, claramente, a vida da menina salva em 2005 não tinha valor singular ou inerente. O costume cultural do infanticídio era o único valor a ser preservado. Desconfio que o que se preserva, quando se permite o homicídio de crianças não é a cultura. Até a pessoa mais ignorante no tema é capaz de entender que sem pessoas, sem indivíduos que a vivam não existe cultura, portanto a preservação das pessoas tem que vir antes da abstração da cultura. Mas o que eles queriam é a manutenção do Darwinismo social mal-disfarçado que permeia o indigenismo brasileiro. Este é hoje o conceito predominante no meio indigenista. Como erro curioso na cadeia evolucionista, estas culturas “primitivas” devem ser preservadas ao preço até da vida dos indivíduos que as compõem. O cerne do conflito atual entre o governo e as missões, não é a questão religiosa. A acusação de catequese e imposição religiosa é apenas uma máscara. As missões são olheiros. Olheiros dos direitos humanos, olheiros dos invasores de terras, enfim elas expõem a fraqueza do governo e sua incapacidade. Foi assim com a questão do infanticídio indígena que ajudamos a desmascarar.






